Escrevo este texto com algum cuidado, porque falar sobre emoções ainda pode ser mal interpretado. Não o escrevo para criar divisões, mas porque falar sobre vulnerabilidade ainda parece desconfortável. Escrevo-o com a intenção de refletirmos juntos sobre o espaço que realmente existe para sentir.
Fala-se cada vez mais sobre a importância de olhar para os homens com mais humanidade. Repete-se que os homens podem chorar, que podem ser frágeis, que não precisam de carregar tudo sozinhos. Diz-se que já não é preciso ser sempre forte. Mas, na prática, quando essa fragilidade aparece, raramente existe um espaço verdadeiro onde ela possa ficar.
Tenho sentido que cada vez mais homens procuram terapia. Que começam a questionar o silêncio em que foram educados. Que tentam perceber melhor o que sentem, dar nome ao cansaço, à ansiedade, à pressão constante de ter de estar à altura. Parece existir uma vontade genuína de quebrar padrões antigos, de aprender a ser vulnerável sem sentir que isso retira valor ao que são.
Contudo, muitas vezes, quando essa vulnerabilidade finalmente aparece, ela não é realmente acolhida. Ainda existe estranheza quando um homem admite medo, insegurança ou exaustão. Ainda existe uma expectativa invisível de que a abertura tem limites, de que a fragilidade deve ser controlada, medida, discreta.
Existe uma expectativa silenciosa de que o homem aguente. Que resolva. Que continue. Que não pare muito tempo para se perder, porque há contas para pagar, há responsabilidades, há pessoas que dependem dele. E muitos homens crescem a aprender que o valor que têm está no que conseguem suportar em silêncio.
Atenção, quero salientar que isto não significa que as mulheres não estejam também cansadas, porque sei e vejo que estão, profundamente. Muitas carregam o peso da casa, da carreira, das emoções de todos à volta, da necessidade de provar constantemente o seu lugar. Também elas vivem pressionadas por padrões impossíveis, a tentar ser tudo ao mesmo tempo.
Mas talvez o problema não seja descobrir quem está mais cansado.
Talvez seja reconhecer que estamos quase todos.
Vivemos numa sociedade onde o tempo parece sempre curto, onde o descanso se tornou quase um luxo, onde a sensação de estar atrasado em relação à vida nunca desaparece. Onde se pede produtividade no trabalho, presença em casa, atenção nas relações, evolução pessoal constante e tudo isto ao mesmo tempo.
Os homens tentam corresponder ao que aprenderam que deviam ser. As mulheres tentam corresponder ao que lhes dizem que agora podem ser (e bem, atenção). E no meio de tudo isso, muitas pessoas sentem que não há espaço real para simplesmente existir sem estar a falhar em alguma área.
Talvez o verdadeiro problema não seja a fragilidade de uns ou a força de outros. Talvez seja que todos estamos cansados de tentar ser tudo, sempre, sem pausas suficientes, sem tempo suficiente, sem espaço suficiente.
Talvez o que falte não seja coragem para sentir,
mas um mundo que permita sentir sem pressa de voltar a funcionar.







