Embora o papel de mãe seja, na grande maioria, um momento de realização, de um amor galopante que nem sabíamos que exista e, de uma ligação incondicional aquele ser tão pequenino e frágil; é, também um ponto de viragem radical, um sismo que parece ser capaz de abalar com as melhores estruturas da identidade de uma mulher. Porque, depois do parto, não nasce apenas um bebé, nasce também uma nova mulher, uma nova família e, uma nova dinâmica.
Para a mulher que acabou de se tornar mãe, é fácil perder-se entre as mamadas, noites mal dormidas, exigências constantes de um bebé que é completamente dependente de si… Quem é esta mulher? Onde ficou a sua individualidade? Onde ficaram os seus desejos? É aceitável ainda ter desejos? Onde ficou o tempo? Onde ficou … ?
A mulher de outrora não desaparece, mas, transforma-se. Com o nascimento do bebé, espera-se que ocorra uma simbiose mãe-bebé, por forma a alimentar, proteger, amar e cuidar deste bebé, garatindo a satisfação de todas as suas necessidades. Contudo, esta mesma mulher que cuida e se entrega, precisa também de alguém que cuide dela, de alguém que a ampare e que a ajude na pergunta que surge, muitas vezes, em silêncio “quem sou eu agora?”.
A maternidade pode-se tornar uma autêntica experiência de invisibilidade, focando-se quase todos os olhares no bebé. No entanto, temos uma mãe exausta, sensível, perdida, a tentar equilibrar tantas emoções que parecem surgir em catadupa, muitas vezes completamente contraditórias. Se há dias em que o amor transborda, outros são visitados pela culpa; uma mulher que se esforça para estar presente, mas que também se sente nostálgica do seu eu anterior; que ama profundamente o seu bebé, mas, que às vezes também precisa de estar sozinha; tanto há momentos de plenitude como, de um vazio difícil de sentir e de explicar. Estas emoções antagónicas parecem andar de mãos entrelaçadas, o que se torna assustador.
É importante falarmos sobre esta ambivalência emocional; sobre a possibilidade de o amor coexistir com o cansaço; sobre a alegria poder ser invadida pela frustração; sobre a gratidão da maternidade ser visitada pela saudade da liberdade. Falar sobre estas emoções, nomeá-las, normalizá-las, e dar voz ao que sentimos, é o que nos permite elaborar e ;rar o peso da solidão, o peso da culpa e, perceber, que afinal, é um sentimento comum, que é uma maternidade real.
É preciso relembrar que cuidar de um bebé não significa esquecer-se de si, que não é egoísmo e capricho querer ter momentos só para si, pelo contrário, é uma forma também de garan;r a sua própria sanidade.
A mulher que exis;a antes não desapareceu, transformou-se, com novas prioridades, novos limites, novas forças, mas, con;nua lá, a tentar encontrar-se neste novo território. Não se trata de voltar a ser quem era, trata-se sim de descobrir em quem é que se está a tornar.
Ser mãe não anula a mulher, acrescenta-lhe mais camadas. E, quanto mais espaço houver para essas camadas todas, mais inteira e capaz essa mulher se torna e, por conseguinte, mais forte também neste seu novo papel.





