Tomados pelo desejo sedutor de controlar as nossas vidas e o que sobre elas sentimos, organizamos a nossa história em grandes capítulos (semelhantes a manchetes de jornal), que descuram toda a riqueza, detalhe e invariável ambivalência do que vivemos. O tempo, minuciosamente organizado em slots, que nos indicam o que fazer e como nos apresentar, a cada momento, é só mais um sintoma deste controlo.
Na agenda corrida das nossas vidas, ao mês de dezembro ficou reservado o brilho dos sonhos e da magia, de tal maneira que acreditamos que as luzes e canções de Natal são capazes de tornar o espírito leve, revitalizado, e de pôr em stand by qualquer desconforto que estejamos a sentir. No fundo, é como se, neste período, nos obrigássemos a ignorar a nossa própria continuidade e o modo como tudo o que somos é o produto de tudo o que se tem vindo a passar nas nossas vidas.
A verdade é que o Natal transborda ideais profundamente humanos. Todos desejamos sentirmo-nos felizes e radiantes. Todos apreciamos o “quentinho” da segurança que nos envolve, quando nos sentimos pertencentes a um lugar onde o amor circula e onde somos aceites, com as nossas diferenças. Todos ansiamos por relações tão clarividentes, que são capazes de nos adivinhar com o melhor dos presentes.
Mas a vida não tira férias em dezembro.
Podemos estar longe da nossa família. Podemos estar com a família da pessoa com quem esperamos passar todos os Natais da nossa vida, mas que, sinceramente, podia ter escolhido outra mãe! Podemos estar ao lado da nossa família e perceber uma falta de encaixe, porque, em terapia, nos reencontrámos connosco, demos colo à nossa dor, mas redescobrimos uma zanga antiga com alguns familiares, com quem só nos apetece embater. Podemos estar muito tristes, porque nos apercebemos que andámos a viver uma vida que, de tão pouco nossa, nos desgastou e roubou a esperança. Podemos estar a fazer um luto – de uma pessoa que morreu, de uma relação, de uma gravidez. Podemos estar a recomeçar, mas ainda perdidos, sem saber para onde ir. As opções são inúmeras e tão únicas, como a história de cada um de nós.
Por isso mesmo, nesta altura do ano, podemos sentir-nos particularmente desadequados, estranhos, frustrados ou irritados, por não conseguirmos corresponder ao estado de graça que o mundo nos parece exigir. Por, mais uma vez, a vida parecer estar a ser especialmente difícil ou, apenas, imperfeita, especificamente connosco!
E eu só quero dizer-te que está tudo bem! Que dezembro não apaga as nossas dores e desconforto. Que a vida pode estar só uma merda. E que vai passar! Dezembro vai passar! E a dor, devagarinho, também! Ela, como nós, só quer ser vista, mas tende a sentir-se injustiçada. Porque insiste em chamar-nos à atenção para aspetos da nossa vida que precisam de cuidados e nós insistimos em ignorá-la. Mas, como, muitas vezes, a nossa dor é uma demonstração da nossa força e reivindicação, que deseja apenas que possamos viver de forma mais genuína, ela cresce perante nós e faz-nos sentir pequeninos. Crescemos perante ela, quando, inteiros, a assumimos e a colocamos no seu lugar – o de uma parte nossa, mas nunca tudo o que somos. Uma parte da nossa história, que pode coexistir com outros momentos de serenidade e, até, alegria.
Vidas e Natais mais felizes serão, talvez, mais verdadeiros. Afinal, o verdadeiro tempo da esperança não se mede pela ausência de dificuldades, mas pela confiança de que, no meio destas, podemos, ainda assim, viver bem.







