Há momentos em que algo que pode aparentemente ser pequeno, altera profundamente a
forma como uma pessoa vive o seu próprio corpo. Um episódio de vertigem costuma durar
segundos, mas o impacto fica muito para além disso.
Quem descreve a vivência de uma crise de síndrome vertiginoso fala frequentemente da
perda de controlo. Não é apenas uma tontura: é uma sensação clara de movimento quando
tudo está parado. No caso da VPPB (vertigem posicional paroxística benigna), basta um
pequeno gesto, virar a cabeça, deitar-se ou levantar-se, para desencadear uma rotação súbita,
intensa, muitas vezes acompanhada de náusea e desorientação. O episódio passa, mas o corpo
lembra-se. E é aí que começa uma mudança subtil, mas extremamente significativa. A pessoa
torna-se mais cautelosa. Evita determinados movimentos e observa constantemente sinais.
Aquilo que antes era automático, deitar, levantar e olhar, passa a ser pensado, controlado e
vigiado.
Com o tempo pode surgir algo mais difuso. Uma sensação persistente de instabilidade, difícil
de localizar, sem a intensidade clara da vertigem inicial, mas igualmente perturbadora. É
muitas vezes descrita como “como se estivesse num barco”. Aqui entramos no território da
vertigem fóbica. Nesta fase, a ansiedade tem um papel central. O sistema nervoso está mais
sensível. O corpo entra em estado de alerta. A pessoa começa a antecipar sintomas e a
condicionar a sua qualidade de vida (por exemplo: deixa de ir a espaços abertos ou a locais
com muitas pessoas). Não se trata de imaginação. Trata-se de uma experiência real, onde o
corpo e a mente estão profundamente interligados.
A vertigem assusta e quando assusta, deixa marca. Esta marca pode traduzir-se por
hipervigilância, medo de perder o controlo e ainda retração da vida quotidiana. Em alguns
casos, surgem sentimentos de frustração, isolamento ou tristeza. A confiança no corpo, fica
comprometida. Por isso, a abordagem não pode ser apenas física. É importante tratar a causa
vestibular quando existe, mas também compreender o impacto psicológico da experiência. É
necessário ajudar a pessoa a interpretar os sinais do corpo de forma mais segura, reduzir o
medo associado e retomar gradualmente os movimentos e contextos evitados.
Em algumas situações, sobretudo quando a ansiedade se torna persistente, incapacidade ou
associada a sintomas depressivos, pode ser necessário recorrer a medicação psiquiátrica. É
um apoio possível e legítimo. Os fármacos aqui ajudam a regular o sistema nervoso, diminuir
a hipervigilância e criar condições para que o trabalho psicoterapêutico seja mais eficaz. Falar
de medicação, nestes casos, é falar de cuidado. É devolver à pessoa alguma estabilidade
interna quando o corpo deixou de a garantir. Porque recuperar o equilíbrio não é apenas
deixar de sentirmos a vertigem, é voltamos a habitar o nosso corpo com confiança.



