Algo que me ocupa os pensamentos ultimamente é o quão comum (e curioso) é que, muitas vezes, no início de um processo terapêutico tudo esteja aparentemente bem: não há problemas maiores, sintomatologia ou motivos conscientes para um mau estar que, ainda assim, se sente. Aquilo que tenho refletido é sobre como o nosso autoconhecimento é limitado e como, por mecanismos de defesa necessários à nossa sobrevivência e sanidade mental, nos impede de ver realmente o que está mesmo à nossa frente: padrões, dinâmicas relacionais, evitamentos, fragilidades. É como se houvesse uma certa tranquilidade na “ignorância” mas, superficialmente, consciência de que algo não está bem e, com alguma coragem, procuramos a terapia para compreender este estranho sentimento, em busca de nos sentirmos melhor. Com o passar do tempo, começamos a entender e, “pior” ainda, a questionar: começamos a reparar em coisas que antes não eram questões e passa a ser quase impossível ignorar as construções que tínhamos criado sobre o mundo e as pessoas. É aqui que começamos naquilo que parece ser uma espiral descendente sem fim, num buraco negro de informação: informação essa que esteve sempre incosciente e agora vê a luz do dia. Neste momento, já nada podemos fazer: não podemos fingir que não sabemos nem podemos desver. Este é um lugar inevitavelmente desconfortável, onde tantas vezes nos sentimos pior: mais ansiosos, mais desorganizados, mais frágeis.
O que é curioso é que pode parecer, à primeira vista, um paradoxo: procurar terapia na esperança de ficar melhor e sentir o inverso. No entanto, se olharmos de perto, aquilo que realmente se passa é uma transição, onde as certezas que tínhamos deixam de existir e deixamos de caber onde estávamos. Lá no fundo, sempre houve a sensação de que algo não batia certo e a coragem de perceber o quê pode, e provavelmente vai, levar-nos aqui: a um sítio onde já não conseguimos afastar, evitar ou desvalorizar algo que já trouxemos para a consciência. Quando isto acontece, porém, o trabalho não está concluído, quanto muito estará a meio porque, apesar de já entendermos intelectualmente determinadas questões antes inexistentes, não sabemos o que fazer com elas. Já não somos quem éramos mas também ainda não somos quem nos estamos a tornar, e é este lugar profundamente difícil de estar e aguentar que nos poderá fazer sentir como se estivéssemos pior mas, na verdade, é o sofrimento já existente que vem agora ao de cima. O objetivo não é permanecer nesse lugar difícil mas sim conseguir atravessá-lo. Primeiro, aprendemos a ver, depois aprendemos a compreender e, finalmente, aprendemos a escolher o que fazer com aquilo que vemos.
Esta linha de pensamento faz-me sempre lembrar o Matrix e a escolha que o Morpheus oferece ao Neo: o comprimido azul permite permanecer na ilusão do Matrix (ignorância) e o comprimido vermelho desperta para a realidade e a sua profundidade (conhecimento). Todos sabemos que era mais fácil ter optado pelo comprimido azul, não é verdade?




