Há momentos nas nossas vidas nos quais começamos a viver experiências ainda antes de estas, efetivamente, acontecerem e, na maternidade, o regresso ao trabalho, pode ser uma delas.
Para algumas mães, embora ainda possam faltar semanas ou, até mesmo, meses, antes do término da licença, o regresso ao trabalho começa a ocupar espaço no seu pensamento. Olham para o calendário e apercebem-se de que o tempo da licença está a decorrer, começando a fazer contas aos dias que faltam. E, aí, podem surgir vários sentimentos, muitas vezes, contraditórios.
Se, para algumas mães, o regresso ao trabalho é vivido como uma separação do seu bebé, gerando sentimentos como angústia, ansiedade, culpa, e medo de que a ligação se perca ou de que a relação entre ambos se transforme; para outras, o regresso ao trabalho é algo com que já sonham há muito tempo, sentindo-se entusiasmadas com a chegada do “grande dia”, ansiando por voltarem a recuperar uma parte de si que esteve, temporariamente, em stand by.
Contudo, esta vontade de regressar, pode ser igualmente acompanhada por sentimentos de culpa como se, o facto de se sentirem entusiasmadas, significasse amar menos o seu filho.
Mas, não, não se trata de um pensamento assim tão linear.
A maternidade não deve apagar todas as outras dimensões da mulher; a mãe pode sentir uma enorme falta do seu bebé, mas, simultaneamente, desejar voltar à sua profissão; pode sentir tristeza pela separação e, ao mesmo tempo, entusiasmada pelo regresso ao trabalho; pode sentir alívio quando deixa o seu bebé e culpa por sentir esse mesmo alívio; etc. Todos estes sentimentos, embora contraditórios, continuam a fazer destas mães humanas.
Tal como todos os “sentires”, não existe uma forma certa de viver o regresso ao trabalho. O importante é poder reconhecer aquilo que se sente sem transformar esse sentimento numa medida do amor que se tem pelo filho. Porque querer voltar ao trabalho não significa querer menos ser mãe; e, querer manter/prolongar a licença não significa não gostar de trabalhar.
Para algumas mulheres, regressar significa afastar-se, ainda que temporariamente, de uma relação que ocupa quase todo o seu mundo naquele momento.
Para outras, significa recuperar uma parte de si da qual sentem falta de reencontrar.
E, para muitas, pode significar ambas as coisas.
Porque a maternidade não é uma identidade que substitui todas as outras. É uma nova dimensão de quem somos, que passa a coexistir com a mulher, a profissional, a companheira, a amiga e a pessoa que já existia antes.
Assim, o regresso ao trabalho pode começar muito antes do primeiro dia. Começa quando a mãe olha para o calendário e percebe que o tempo está a passar. Quando começa a fazer contas aos dias que faltam, a imaginar como será a separação e como será o reencontro com este lado que esteve meio “adormecido”.






