Quando uma família nos procura por causa do sono, depois de abordarmos o motivo da consulta, a primeira pergunta que fazemos raramente é sobre o sono: é sobre quem são enquanto família. Como foi a gravidez, como correu o parto, como está a mãe, como está o pai, quem mais vive naquela casa, o que mudou desde que o bebé chegou. E para muitos pais, naquele momento, parece um desvio ao assunto, mas não é – é o assunto.
O sono de um bebé não existe isolado, já dizia o pediatra a psicanalista Donald Winnicott. Existe dentro de uma relação, e essa relação existe dentro de um sistema familiar, com uma história, com tensões, com recursos e com desafios. Um bebé que acorda dez vezes por noite pode estar simplesmente a atravessar uma fase do desenvolvimento absolutamente esperada. Mas pode também estar a comunicar algo sobre a ansiedade de quem o embala, sobre um luto perinatal que ainda não foi nomeado, sobre uma dinâmica conjugal em sofrimento, sobre uma vinculação que precisa de ser compreendida antes de ser corrigida. Avaliar sono é avaliar tudo isto. E isto é da área da Psicologia.
Não é possível separar o corpo que dorme mal do sistema relacional em que esse corpo existe. Um bebé nasce sempre a dois, na díade com quem cuida dele – e essa díade traz consigo uma história de vinculação, expectativas, medos, e por vezes feridas que antecedem em muito o nascimento. Avaliar essa díade, perceber como mãe e bebé, ou pai e bebé, ou mesmo mãe e pai se regulam mutuamente não é um extra na consulta de sono – é a base sem a qual qualquer orientação sobre rotinas ou ambiente fica pela superfície.
E essa história começa muito antes do parto. O modo como um casal chega à parentalidade, a forma como cada um foi cuidado enquanto criança, uma gravidez desejada ou atravessada por medo, uma perda anterior, uma relação de casal já fragilizada, tudo isso não desaparece quando o bebé nasce. Reorganiza-se, e muitas vezes é precisamente nas noites, no cansaço extremo, na exigência constante de um recém-nascido, que essa história pede para ser olhada. O que trazemos de “antes do bebé” molda o modo como cuidamos dele depois, molda a tolerância à frustração, a capacidade de conter o choro sem entrar em pânico, a confiança ou insegurança com que se responde a cada despertar noturno. Um sono difícil pode, por isso, ser também o eco de uma história que não é do bebé, mas que passa a viver-se através dele.
É por isso que, na nossa prática, insistimos em algo que pode parecer apenas técnico e não é: quem acompanha o sono de um bebé precisa de formação em psicologia, e dentro dela, em saúde perinatal e desenvolvimento infantil. Não porque outras formações não tragam competência ou cuidado, mas porque o que está em jogo numa consulta de sono raramente se esgota na fisiologia – está lá o vínculo, está lá o luto, estão lá relações. Está lá a ansiedade parental, a psicopatologia materna (por vezes não diagnosticada), o casal a reorganizar-se, os irmãos mais velhos a reagir à mudança, a própria história de infância de quem agora é pai ou mãe. Avaliar tudo isto exige formação clínica em saúde mental, não apenas conhecimento sobre ciclos de sono.
Há um risco real quando o sono é tratado como um problema isolado, técnico, a resolver com um plano de horários e associações. Uma mãe exausta não precisa de uma tabela de janelas de vígilia ou horas de sono por idade. Muitas vezes precisa de ser ouvida sobre o parto que a marcou. Um bebé que só dorme ao colo não tem um problema de sono – pode estar a comunicar, da única forma que sabe, uma necessidade de proximidade que ainda não encontrou outra resposta.
Trabalhar o sono com rigor é, por isso, trabalhar a família. É olhar para o bebé sem o separar de quem o segura, é ter formação para reconhecer quando o que parece sono é, na verdade, vinculação, luto, ansiedade, ou uma dinâmica sistémica que precisa de espaço próprio. Nenhuma rotina de sono resolve aquilo que pertence à relação. E é exatamente por acreditarmos nisto que continuamos a insistir, mesmo sabendo que é mais fácil vender uma solução rápida, que o sono de um bebé merece ser olhado com os olhos de quem sabe ver a família toda, não apenas a noite.


