Do que é que eu preciso, agora, nesta relação?
É uma pergunta simples, mas quase nunca a fazemos a nós próprios. É mais fácil identificar o que nos incomoda, o que o outro fez ou deixou de fazer, ao invés de parar e nomear a necessidade que está por trás disso. A verdade é que crescemos, muitas vezes, sem grande espaço para aprender a reconhecer as nossas próprias necessidades, quanto mais a comunicá-las com clareza. Aprendemos a adaptar-nos, a antecipar o que os outros esperam de nós, a funcionar. Para muitos de nós, não nos foi ensinado a parar e a perguntar, com honestidade, o que precisamos mesmo.
Esta dificuldade tem um efeito que passa despercebido: quando não conseguimos aceder às nossas próprias necessidades, também se torna mais difícil reconhecer as necessidades de quem está do outro lado. Não porque não nos importemos, mas porque estamos a olhar para a relação sem o mapa mais importante, que é o nosso próprio.
E é talvez por isso que as relações que duram não são as que estão livres de conflito, mas as que vão aprendendo, a dois, a construir esse mapa em conjunto. A dizer o que precisam e a ouvir o que o outro precisa, mesmo quando isso é diferente do que esperavam ou do que já vinha por hábito. Esta ideia não se aplica só à relação de casal – atravessa praticamente todos os vínculos que acompanhamos no nosso trabalho. Porque o ser humano é feito de relações e de necessidades e desde o bebé ao adulto há necessidades dentro de cada relação significativa que deveriam ser traduzidas e acolhidas.
E o primeiro passo é sempre voltar a nós, antes de pedirmos ao outro que nos compreenda, vale a pena perguntar o que é que realmente precisamos naquele momento. Não o que achamos que devíamos precisar, nem o que seria mais fácil de pedir, mas aquilo que é verdadeiro.
Depois, há um segundo passo, que é dizê-lo. Em voz alta, com palavras simples, sem esperar que o outro adivinhe. Preciso de um momento para respirar antes de falarmos disto. Preciso de sentir que não estou sozinha nesta noite. Preciso que confies que sei o que é melhor para o nosso filho, mesmo quando erro. São frases pequenas, mas que abrem espaço para que a relação deixe de ser um jogo de suposições.
E vale a pena treinar também o olhar para o outro – perguntar, em vez de presumir, mesmo quando achamos que já sabemos a resposta porque as pessoas e as suas necessidades mudam, sobretudo nas fases de maior transição e vulnerabilidade, como a maternidade ou a paternidade.
Não é um caminho que se percorre de uma vez. É um processo, uma prática que se repete, com avanços e recuos, em que vamos ficando um pouco mais fluentes na linguagem das nossas próprias necessidades e um pouco mais atentos às do outro. É isso, no fundo, que sustenta os vínculos que continuam a fazer sentido ao longo do tempo, seja entre um casal, entre pais e filhos, ou em qualquer outra relação que nos seja importante.
Para que isto seja possível, é preciso um trabalho constante de autoconhecimento: perceber o que nos ativa e o que nos cativa, distinguir as necessidades que já sabíamos que tínhamos das que só vamos descobrindo em nós, muitas vezes através da própria relação. É esse conhecimento, sempre inacabado, que nos vai permitindo continuar a construir relações mais verdadeiras.



