A ansiedade depois do parto pode aparecer de formas que nem sempre reconhecemos 

Quando se fala de ansiedade depois do parto, é comum imaginar uma mãe muito preocupada, com o coração acelerado, pensamentos difíceis de controlar ou medo constante de que alguma coisa aconteça ao bebé. Mas nem sempre é assim que a ansiedade aparece. 

Por vezes, aparece de formas mais silenciosas. Disfarça-se de preocupação, de necessidade de controlo, de dificuldade em descansar ou daquela sensação de que é preciso estar sempre atenta. Pode ser a mãe que verifica várias vezes se o bebé está a respirar enquanto dorme. A que acorda durante a noite para confirmar se está tudo bem, mesmo quando o bebé está tranquilo. A que pesquisa constantemente sintomas na internet, procura respostas para cada pequeno comportamento do bebé ou sente necessidade de perguntar várias vezes se aquilo é normal. Pode ser também a mãe que sente que precisa de fazer tudo de determinada forma para que nada corra mal. Que tem dificuldade em delegar porque pensa que os outros não vão reparar em tudo o que ela repara. Ou que, quando finalmente consegue descansar, sente culpa por não estar a aproveitar esse tempo para tratar de alguma coisa relacionada com o bebé. 

Às vezes, a ansiedade aparece sobretudo através dos pensamentos: 

“E se ele ficar doente?” 

“E se eu não perceber que alguma coisa está mal?” 

“E se eu adormecer e acontecer alguma coisa?” 

“E se eu não estiver a ser uma boa mãe?” 

“E se alguma coisa acontecer quando eu não estiver por perto?” 

Ter alguns destes pensamentos pode acontecer no pós-parto. Tornar-se mãe ou pai é uma mudança enorme, e é natural existir preocupação perante uma pessoa tão pequena e dependente.  

A questão está muitas vezes na intensidade, na frequência e no espaço que estas preocupações começam a ocupar. Quando a preocupação não dá descanso. Quando se torna difícil estar presente nos momentos bons porque a cabeça está sempre à procura do que pode correr mal. Quando descansar parece impossível, mesmo quando existe oportunidade para o fazer. Quando a necessidade de controlar tudo começa a trazer sofrimento. Quando os medos fazem com que a mãe deixe de sair, evite ficar sozinha com o bebé ou deixe de fazer coisas que antes faziam parte da sua vida. Ou quando sente que está constantemente em alerta, como se tivesse de estar preparada para uma emergência que nunca chega. Nesses momentos, pode ser importante pedir ajuda. 

Procurar apoio psicológico não significa que a mãe esteja a falhar, que não esteja preparada para ser mãe ou que não consiga cuidar do seu bebé. Significa reconhecer que está a ser difícil e que não precisa de passar por isso sozinha. É importante procurar ajuda quando surgem pensamentos assustadores ou indesejados que causam sofrimento, sobretudo se forem persistentes ou acompanhados por uma sensação de perda de controlo. Nestes casos, é importante falar com um profissional de saúde. 

E há uma ideia que merece ser repetida: uma mãe pode estar muito feliz por ter o seu bebé e, ao mesmo tempo, sentir-se muito ansiosa. O amor pelo bebé e o sofrimento emocional podem existir ao mesmo tempo. O pós-parto não precisa de ser vivido em silêncio. 

Às vezes, o primeiro passo é simplesmente conseguir dizer: “Tenho estado muito preocupada e sinto que já não consigo desligar.” E ser escutada. Sem julgamentos. Sem culpa. Com espaço para perceber o que está a acontecer e encontrar, com apoio, uma forma de voltar a respirar um pouco mais tranquila. 

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Mónica Torres

Psicóloga Clínica

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