O impacto psicológico da infertilidade 

Quando desejamos muito ter um filho, é fácil imaginar que, quando chegar o momento certo, tudo acontecerá naturalmente. Mas, quando os meses passam e a gravidez não chega, o que começou por ser um desejo pode transformar-se numa experiência emocionalmente muito exigente. Entre consultas, exames, tratamentos, expectativas e novas tentativas, a infertilidade pode começar a ocupar um espaço cada vez maior na vida do casal. 

É natural que surjam muitas emoções ao longo deste caminho. Esperança, ansiedade, entusiasmo, medo, frustração, tristeza, raiva, culpa… às vezes, tudo isto pode acontecer em poucos dias. Um teste negativo pode ser vivido como uma pequena perda e, a cada novo ciclo, pode voltar a surgir aquela esperança de que “desta vez vai ser”. E quando não acontece, pode ser difícil encontrar forças para começar novamente. 

Para muitas mulheres, esta experiência mexe também profundamente com a relação com o próprio corpo. Exames, tratamentos, alterações hormonais e relações sexuais programadas podem fazer com que o corpo deixe de ser sentido como seu e passe a ser vivido quase sempre em função da gravidez. Podem surgir pensamentos dolorosos, mas lembre-se: o seu corpo não está a falhar e a infertilidade não é uma falha sua. O seu valor não depende da sua capacidade de engravidar. 

E, no meio de tudo isto, existe também o casal. Nem sempre os dois vivem a infertilidade da mesma maneira. Um pode precisar de falar, chorar e procurar respostas, enquanto o outro pode precisar de algum silêncio ou de se distrair. Estas diferenças podem ser difíceis, mas não significam que estejam mais distantes ou que deixaram de se compreender. Significam apenas que estão a tentar lidar, cada um à sua maneira, com algo que não escolheram viver. 

Também o mundo à volta pode tornar-se mais difícil. Uma gravidez anunciada por uma amiga, um bebé na família ou uma pergunta aparentemente inocente como Então, quando vem um bebé? podem despertar tristeza e desconforto. E está tudo bem. É possível estar genuinamente feliz por alguém e, ao mesmo tempo, sentir dor pela própria história. Uma emoção não anula a outra. Dar-se permissão para estabelecer limites e proteger-se de situações que naquele momento são demasiado difíceis também é cuidar de si. 

Por isso, cuidar da saúde emocional durante este processo é tão importante como cuidar da saúde física. Não significa que está a lidar mal com a infertilidade. Significa reconhecer que está a atravessar uma experiência exigente e que não precisa de o fazer sozinho. Procurar apoio psicológico pode ajudar a encontrar espaço para aquilo que sente, lidar com a ansiedade e a incerteza, cuidar da relação e, sobretudo, lembrar-se de que existe uma pessoa para além da infertilidade. 

Cuidar da saúde emocional é também cuidar do casal e do caminho para a parentalidade. E, neste caminho, pedir ajuda também é uma forma de cuidar. 

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Mónica Torres

Psicóloga Clínica

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