A voz do inominado

Na quietude da noite, o corpo fala,
num leve sussurro, um murmúrio,
em que o pensamento se fixa e instala:
“será prenúncio de mau augúrio?” 

Somente um ardor, um palpitar, 
dormência vaga de qualquer sorte,
mas na mente cresce, sem cessar,
um medo antigo: a sombra da morte. 

Mais do que um medo é um saber,
porventura falso… mas sê-lo-á?
Se o corpo fala, terá razão para o fazer…
ou tão-só pânico de se calar? 

Cada sintoma um espelho, 
cada sinal um eco. 
O corpo torna-se dialeto 
do que é pela mente inominado:
o amor que faltou; 
o calor que ficou por ser, 
por receber, 
por reparar… 
o corpo oferece-se 
para que dele saibam cuidar. 

A doença tem forma, passível de revelar,
mas invisível em ECG, TAC ou ecografia:
é privação, é angústia sem lugar;
é dor psíquica silenciada 
que o corpo anseia por fazer escutar.

Escuta-o.

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Luís Chambel Martins

Psicólogo Clínico

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