A entrada na creche, no jardim de infância ou na escola é uma grande mudança para qualquer criança. Há adultos novos, outras crianças, novas rotinas, espaços e regras e, muitas vezes, períodos maiores de separação dos pais.
Contudo, nas crianças neurodivergentes, há ainda outras dimensões que precisamos de considerar. E isto não significa que todas tenham dificuldade em adaptar-se, atenção. Significa apenas que algumas exigências da escola podem ser particularmente desafiantes, dependendo do perfil de cada criança.
Antes de mais, deixem que clarifique que adaptar-se à escola é muito mais do que conseguir ficar sem os pais. Para além de assentar na capacidade e no tempo de criar novas relações significativas com os adultos de referência, ao longo de um dia, é preciso acompanhar instruções, esperar, mudar de atividade, lidar com imprevistos, estar num grupo, comunicar necessidades, gerir estímulos perceber o que os adultos esperam e não menos importante, relacionar com os pares. Para algumas crianças, tudo isto exige um esforço muito maior e temo, que muitas vezes, o meio não tem em consideração estas dificuldades nem se adapta às crianças como deveria.
Por exemplo, não só na neurodivergência mas muito comum nela, há crianças para quem a imprevisibilidade pesa mais e saber quem as vai receber, o que vai acontecer ao longo do dia ou quando os pais regressam pode ajudá-las a sentirem-se mais seguras e organizadas. Estratégias que podem ajudar são conteúdos visuais como fotografias, rotinas visuais, antecipação das mudanças ou simplesmente uma rotina mais consistente podem fazer uma enorme diferença.
Também, para outras, a maior dificuldade pode estar no ambiente. Uma escola é também ruído, luz, cheiros, muitas pessoas, toques inesperados, corredores, refeitórios, recreios e mudanças constantes de espaço. Aquilo que para uma criança passa despercebido pode ser muito intenso para outra e aqui teremos de concordar que muitos espaços ainda não estão preparados para isto.
E para outras ainda, a dificuldade pode estar noutro lugar: na linguagem, na atenção, na aprendizagem, na coordenação, na interação com os pares, na organização ou na velocidade com que é esperado que acompanhem o grupo e aqui uma abordagem multidisciplinar será importantíssima.
É por isso que, quando uma criança está com dificuldade, não basta pensar: “Ela tem de se habituar.” Precisamos primeiro de perceber ao que é que ela está a ter dificuldade em adaptar-se.
Também precisamos de olhar para o que acontece fora da escola. Como chega a casa? Consegue recuperar? Como está o sono, a alimentação, a brincadeira e a relação com os outros? As dificuldades estão a diminuir à medida que os dias passam ou estão a aumentar?
Nenhum destes sinais, sozinho, nos diz se uma adaptação está a correr bem ou mal. O importante é olhar para a criança como um todo e perceber a sua evolução ao longo do tempo. Porque a adaptação também não é linear. Há crianças que choram muito nos primeiros dias e depois começam a explorar. Outras parecem adaptar-se imediatamente e só mais tarde demonstram dificuldade. E não existe um número de dias ao fim do qual todas as crianças deveriam estar adaptadas.
Talvez, na neurodivergência, esta seja uma das mudanças mais importantes que podemos fazer:
deixar de pensar apenas em como adaptar a criança à escola e começar também a pensar em como podemos adaptar a escola àquela criança. E este é o apelo em que os diferentes contextos que envolvem aquela criança devem dar as mãos é trabalhar juntos







