“Em pleno inverno descobri dentro de mim um verão invencível.”

Uma luz pequena, ainda sem nome,
a aquecer lentamente a terra escura do corpo.
Quase nada —
e, no entanto, tudo começa a inclinar-se nessa direção.
Há um segredo a crescer no silêncio.
Uma promessa microscópica
que o coração reconhece antes de qualquer pensamento.
E sem dar conta, começa-se a abrir espaço.
No corpo.
No tempo.
No lugar onde se guarda o futuro.
É cedo demais para certezas,
mas não é cedo demais para esse amor estranho
que nasce antes da forma.
Depois vem o frio.
Um frio diferente do inverno lá fora.
Um frio que entra devagar,
como uma sombra que atravessa a luz.
E o silêncio.
Esse silêncio impossível
onde se percebe que algo parou
antes mesmo de aprender a pulsar.
De repente tudo se transforma em superfícies claras,
em vozes baixas,
em mãos que sabem exatamente o que fazer.
Como se aquilo que estava a acontecer
pudesse ser resolvido.
Como se o corpo fosse apenas um lugar
onde algo falhou.
Mas dentro delas
não é falha.
É um começo.
E quando o levam,
não levam apenas o que não chegou a ser.
Levam também o lugar que já se tinha aberto,
a inclinação secreta do coração,
esse verão improvável
que por um instante
viveu dentro delas.
E o inverno volta.
Mas a terra lembra-se.

Lembra-se de que, por um breve e indizível momento,
algo tentou florescer ali.
E talvez ninguém saiba que existiu.
Talvez o mundo nunca tenha escutado esse silêncio.
Mas o corpo sabe.
O coração sabe.
Porque por um instante
houve vida dentro delas —
e há coisas que, mesmo tão breves,
transformam uma mulher para sempre.

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Rita Sousa

Psicóloga Clínica

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