Máscaras incompletas. Seres incompletos.

Há uma certa sensação de liberdade de podermos ser quem quisermos durante uns dias por ano, de podermos encarnar os nossos piores medos ou os nossos maiores desejos. Canalizar aquilo que nos inquieta por dentro, dar-lhe corpo e personalidade sentindo-nos capazes de os conquistar. Talvez nos sintamos empoderados por percebermos que afinal até é possível fazê-lo, sê-lo, mesmo que por um curto período de tempo. aliás, talvez aquilo que nos liberte realmente seja o facto de ser limitado no tempo, estarmos certos de que não podemos tudo a todo o instante mas que, naqueles instantes podemos (esquecemo-nos facilmente como os limites trazem mais segurança do que aquilo que gostamos de admitir).

Se esta brincadeira dos disfarces pode ter um impacto grande nos adultos, imaginemos o impacto nas nossas crianças, aquelas que estão constantemente a encenar aquilo que as angustia por dentro e que as faz vibrar. as brincadeiras que criam onde experimentam o que é ser o vilão e o herói; o que é ser pai e filho; o que é ser submisso e omnipotente; o que é ser quem ataca e quem cura; quem agride e quem repara. estas encenações são essenciais ao seu crescimento. mas será que não estamos a interferir nelas?

Tenho ouvido falar que as escolas, e muitos pais (bem sei!) têm proibido certos aspetos destes disfarces. os polícias têm de se apresentar agora ao serviço sem pistolas. os piratas têm de esconder as suas espadas e fazer crescer a mão outrora em gancho. os vampiros têm de arrancar os seus caninos afiados. as bruxas têm de largar as suas vassouras voadoras e aprender a andar com duas pernas. Onde queremos chegar com isto, afinal? Mesmo na altura do ano em que toda uma sociedade nos dá aprovação para sairmos do nosso corpo e experimentarmos um outro, de corrermos o risco do ridículo e ousarmos ir além do que nunca ousámos, nós cortamos as asas às nossas crianças. damos-lhes permissão apenas para envergar máscaras incompletas, não lhes dando espaço para encenarem tudo o que precisam para eles próprios se tornarem completos.

Porque é que continua a ser tão difícil para nós deixar as nossas crianças viver a sua agressividade? Se nem as deixamos brincar com ela, como achamos que vão conseguir aprender a geri-la?