Entrou agosto. Ou, como alguns pais lhe chamam: “o mês em que as férias começam… para dar mais trabalho”.
Todos imaginamos agosto como o mês da praia, dos dias longos, dos jantares demorados, do descanso e da pausa. Como se, ao virar a folha do calendário, a vida carregasse automaticamente no botão “desligar”.
Mas nem sempre é assim.
Há um sistema educativo que fecha durante semanas. E faz sentido que as crianças tenham férias. O desafio é que o mundo do trabalho nem sempre acompanha esse calendário.
E é aí que muitas famílias entram num verdadeiro exercício de gestão.
Há casais que dividem agosto ao meio. Um tira as primeiras semanas, o outro as seguintes. Não porque quisessem passar férias separados, mas porque é a forma possível de garantir que os filhos têm quem cuide deles. Outros contam com a ajuda preciosa dos avós ou da família alargada. Outros conseguem, felizmente, conciliar tudo e estar juntos.
Cada família encontra a solução que consegue.
Mas fico muitas vezes a pensar: quando as “férias” são organizadas para assegurar cuidados, horários, refeições, atividades e logística, continuam a saber a férias?
Não é uma questão de falta de amor. Pelo contrário. É precisamente porque há tanto amor que tantos pais fazem este esforço, muitas vezes sacrificando aquilo que também precisavam: descansar juntos.
E talvez seja por isso que agosto, para algumas pessoas, acabe por ser um mês vivido com mais cansaço do que leveza.
Tenho a sensação de que colocamos demasiadas expectativas neste mês.
Agosto deveria ser um espaço para abrandar. Para sentir o tempo passar sem olhar constantemente para o relógio. Para ir à praia sem pressa. Para dormir um pouco mais. Para conversar. Para brincar. Para não fazer nada sem sentir culpa.
Porque setembro chega sempre.
E, com ele, regressam as rotinas, a escola, o trabalho em força, os horários e a sensação de que o ano recomeça outra vez.
Recarregar não é um luxo. É uma necessidade.
E para quem não tira férias em agosto?
Curiosamente, eu gosto de trabalhar neste mês. Talvez seja um pequeno “outsider” entre psicólogos, já que muitos aproveitam para encerrar durante algumas semanas. Eu prefiro reduzir o ritmo, em vez de parar completamente.
Agosto tem uma tranquilidade diferente. Muitas pessoas vão de férias e isso traz uma flexibilidade que durante o resto do ano é difícil encontrar. Há mais facilidade em ajustar horários, remarcar consultas ou encontrar aquele espaço que normalmente parece impossível.
Também isso é uma forma de abrandar.
No fundo, talvez agosto não tenha de ser perfeito.
Talvez baste que nos permita respirar um pouco mais fundo do que nos outros meses.
E, se possível, que quando setembro chegar possamos olhar para trás e pensar: “soube-me bem.”







