há pouco tempo, li um livro sobre a psicanálise com crianças e, na revisão histórica da autora Tânia Ferreira, fui confrontada com a ideia de que a infância não teve sempre o mesmo significado. parece uma ideia tão simples e tão óbvia, mas confesso que não tinha parado tempo suficiente para pensar nisso… a infância, como qualquer outro conceito da nossa sociedade, tem uma base histórica, social e cultural e, por isso, mutável. e na história da infância encontramos anos de invisibilidade.
nesta revisão histórica da autora, percebe-se como durante longos períodos a infância esteve vinculada à sua dependência, algo que não ia além das incapacidades motoras da criança pelo que, rapidamente, a infância terminava “a criancinha se transformava num jovem, sem passar por todas estas etapas que hoje consideramos essenciais” diz-nos Tânia Ferreira.
durante este tempo, às crianças não eram reconhecidas necessidades emocionais, psicológicas ou biológicas específicas e, com isto, não havia roupas diferentes para as crianças, nem uma linguagem diferente da do adulto. a criança habitava o mundo dos adultos sem que lhe fosse reconhecido um universo próprio.
fizemos um longo caminho para as nossas crianças serem reconhecidas como um ser humano digno de ter um olhar e espaço únicos na nossa sociedade, contudo, preocupa-me que haja uma tensão em torno da infância que pode tornar-se enlouquecedora.
por um lado, assiste-se a um esforço crescente para “limar” a infância, eliminando riscos, ruídos, frustrações e incertezas. multiplicam-se ambientes controlados, agendas estruturadas e espaços cuidadosamente organizados para reduzir qualquer possibilidade do erro ou sofrimento. a infância torna-se um território progressivamente higienizado, onde o imprevisto é frequentemente vivido como ameaçador.
por outro, emerge um movimento quase inverso, que procura devolver a infância à sua condição mais espontânea e indomável. cresce a valorização do brincar livre, da relação com a natureza, da exploração autónoma dos espaços e da confiança nas capacidades da criança para enfrentar pequenos riscos. a floresta, a terra, a chuva ou os animais voltam a ser entendidas como lugares de desenvolvimento… mas o desamparo parece preponderar.
isto é, se uma infância completamente protegida da incerteza corre o risco de impedir o desenvolvimento da criança, oferecendo um mundo onde nada falta, mas onde também pouco pode ser desejado. também uma liberdade sem continência pode transformar a exploração em desamparo, expondo as nossas crianças a experiências para as quais ainda não dispõem de condições emocionais de elaboração.
talvez seja pela complexidade do ser humano e da importância da infância para a constituição do indivíduo, que a infância continua a obrigar cada geração a reinventar-se. será no intervalo – onde a proteção não anula a espontaneidade e a liberdade não elimina os limites e o vínculo – que a infância encontra o lugar potencial para o crescimento. talvez ainda estejamos a descobrir esse lugar…







