O chemsex, abreviação de “chemical sex” (sexo químico), refere-se à utilização de substâncias psicoativas para intensificar e prolongar encontros sexuais. Embora esta prática possa ocorrer em diversos contextos, o mais comum é entre homens que fazem sexo com homens, muitas vezes envolvendo múltiplos parceiros, sendo que frequentemente são encontros organizados através de aplicações de encontros. Esta prática tem-se tornado mais comum nos últimos anos, impulsionada pelo fácil acesso às drogas e pelo aumento do uso das aplicações de encontros.
Os principais motivos para a prática do chemsex incluem a procura por prazer intensificado e prolongado, redução de inibições e aumento da resistência física, o que permite a que encontros sexuais, conhecidos como “festinhas”, possam durar horas ou até dias. As substâncias mais utilizadas no chemsex incluem poppers, GHB (ácido gama-hidroxibutírico), metanfetamina, mefedrona, cetamina, cocaína, canábis e álcool. Estas substâncias quando consumidas permitem desinibir, intensificar o ato sexual, proporcionar sensações de euforia, aumentar a confiança, o desejo e a estimulação sexual. Apesar dos efeitos desejados, o chemsex traz riscos consideráveis para a saúde, como a exposição a infeções sexualmente transmissíveis (ISTs), dependência das substâncias, intoxicação e overdose.
Embora o chemsex seja frequentemente associado à procura de prazer intensificado e à superação de limitações físicas ou emocionais, é essencial refletir sobre o que leva tantas pessoas a recorrer a substâncias para se relacionarem sexualmente. Esta prática revela quase como que uma difusão de responsabilidade para que as pessoas se evadam, vivam fetiches e fantasias, prolonguem o prazer e expiem a culpa de uma forma, até certo ponto, mais livre, mais intensa e sentida com o outro. A normalização crescente deste comportamento sugere que, para muitos, a utilização de drogas parece ser quase indispensável para atingir um estado que se permitam a conectar com o outro. Mas será que este fenómeno reflete apenas a procura por prazer ou existe 1 um desejo mais profundo e inconsciente de conexão emocional e de intimidade que se tenta alcançar através do consumo?
Na minha prática clínica, tem sido comum que o consumo de substâncias e a sua dependência vem de um lugar para atenuar ou até mesmo fugir de tudo o que se está a sentir, quase como se quisessem ficar adormecidas emocionalmente. Ora diria que se torna preocupante para a sociedade quando começamos a não conseguir envolver-nos sem estarmos em estados alterados, o que é que isto poderá dizer do ser humano, uma vez que somos seres relacionais. Como é que se cria uma conexão verdadeira com o outro quando estamos com efeitos de substâncias que acabam por alterar o nosso estado mental e relacional. Até que ponto não cria uma falsa sensação de sociabilidade, que se inicia de um modo virtual e termina com uma satisfação imediata por puderem pensar que controlam uma realidade que afinal é ilusão. Uma realidade criada e sustentada pelo efeito das substâncias.
É a velha história de sexo versus amor, existe uma diferença em que um é apenas o ato físico sexual e no outro acrescenta-se a intimidade, o afeto e a conexão. Será que é isto que procuram inconscientemente através desta prática, a procura de uma conexão que possa ser sentida como real? Até que ponto se consome com o intuito de facilitar uma proximidade, mas não estarão a afastarse mais ou mesmo desligar-se da relação com o outro. Acabando mesmo por se isolarem, intensificando o sentimento de solidão que tentam combater com este consumo normalizado.







